Aldeias Históricas: Idanha-a-Velha, a antiga “Egitânia”

Idanha-a-Velha é uma pequena aldeia situada nas margens do rio Pônsul, na região Centro de Portugal, mais propriamente na raia beirã, no distrito de Castelo Branco. Faz parte da rede de 12 Aldeias Históricas de Portugal e é uma das mais antigas do conjunto.

É uma aldeia cheia de charme e encanto, e passear nas suas ruas é como passear num autêntico museu a céu aberto. No entanto, a sua importância está muito para além da sua inquestionável beleza, e é a sua história longínqua, maior que a do nosso Portugal, que a faz ser ponto de paragem obrigatória a todos os que visitam a Beira Baixa.

Idanha-a-Velha

Já tínhamos visitado esta aldeia mais que uma vez, outrora separados, quando ainda nem nos conhecíamos e agora juntos, e sendo o Luís natural de Castelo Branco, tem a obrigação acrescida de a conhecer, assim como toda a região. Desta vez, e na sequência do projecto #EuFicoEmPortugal da ABVP,  voltámos para a ver com outros olhos, muito com o intuito de vos dar a conhecer a sua história e a sua importância. Até porque, e é bom lembrar, entrar em Idanha-a-Velha é como entrar numa história com mais de dois mil anos. Por isso preparem-se bem para tudo o que irão ver.

A História

Por aqui passaram vários povos ao longo dos tempos. Os vestígios encontrados remontam ao século I, altura em que os romanos aqui terão edificado uma cidade, parte do território da Civitas Igaeditanorum, sob o domínio do Imperador Augusto.

No século VI, foi tomada por visigodos e suevos que então a baptizaram de Egitânia e a elevaram a sede episcopal em 599, tornando-a num importante centro urbano. Em 713 foi perdida para os exércitos árabes, mas reconquistada por D. Afonso III, Rei de Leão. Fazia já parte do Condado Portucalense, quando Portugal se tornou país, e foi D. Afonso Henriques que a entregou à Ordem do Templo (Templários) para o seu repovoamento. Mais tarde, em 1229, D. Sancho II deu-lhe foral e D. Dinis, em 1319, por força da extinção dos Templários, inclui-a na ordem de Cristo, com o intuito de aqui fixar a população. D. Manuel I, em 1510, dá-lhe novo foral, mas a sua importância foi-se perdendo até deixar de ser freguesia no inicio do século XIX.

A sua desertificação e abandono estava há muito destinada, e hoje em dia já são poucos os que aqui vivem. Chega por vezes até a ser difícil, a visitantes como nós, cruzar-mo-nos com algum dos seus habitantes, enquanto passeamos pelas quelhas empedradas. Há que permanecer por aqui mais tempo, ou até mesmo sentar no único café da aldeia, e observar o tempo passar, até que ao final do dia ali se juntem para as conversas amenas de uma tarde de Verão.

Mesmo sendo hoje apenas uma pequena aldeia, a glória e importância de outrora mereceram a Idanha-a-Velha a elevação a Monumento Nacional, sendo um dos mais importantes testemunhos da história desta região, desde muito antes da nossa existência enquanto país.

O que visitar em Idanha-a-Velha

Porta Norte

Assim que chegámos, parámos o carro no estacionamento exterior. A Porta Norte com a sua cerca muralhada é a nossa primeira visão, e é junto a ela que fazemos o acesso ao interior da aldeia. A muralha que marca a presença das estruturas defensivas que a envolviam da época em que necessitou de se proteger. Hoje é apenas um troço, mas encontra-se restaurada e com um passadiço que permite percorrê-la e ter uma visão superior da aldeia.

Casa Marrocos

Já no interior da muralha, passamos por alguns armazéns e damos de frente com o portão do solar da família Marrocos e respectivas dependências. A Casa Marrocos foi mandada construir pelo senhor do latifúndio e último morgado de Idanha-a-Velha, António de Pádua e Silva Leitão Marrocos. Era conhecida como Casa Nova, porque iria substituir a anterior casa da família aqui existente. Infelizmente, o morgado faleceu sem nunca a ter finalizado e o seu filho acabou por suspender a sua construção.

Foi vendida recentemente à Câmara Municipal de idanha-a-Nova com o intuito de a reabilitar e transformar em hotel. Enquanto isso não acontece, podemos observá-la apenas por fora e admirar as suas belíssimas cantarias e varandas de pedra.

Sé Catedral

Contornando a Casa Marrocos até ao lado oposto, encontramos a Igreja de Santa Maria, mais conhecida como Sé Catedral de Idanha-a-Velha. Este é um edifício único no nosso país e incontornável na história desta aldeia. Sabe-se que terá sido, desde a sua primeira construção no século IV, sempre dedicado ao culto, mas dados os inúmeros povos que por aqui passaram, a mesma foi sendo adaptada consoante as religiões de cada um. Assim, terá sido primeiramente dedicada ao culto cristão, sob o domínio suevo, mais tarde sob influência árabe, terá servido ao culto islâmico, e com a reconquista aos mouros, terá sido totalmente reconstruída pelos Templários como igreja católica, dedicada a Santa Maria. Tanto no seu exterior, como no seu interior podemos observar traços bem vincados de todas estas épocas, já as suas sucessivas obras resultaram sempre do reaproveitamento dos materiais dos edifícios anteriores, até mesmo romanos.

Paredes meias com a Catedral e um pouco antes da Porta Sul, podemos também observar um importante conjunto de ruínas colocadas a descoberto durante as escavações arqueológicas aqui ocorridas e que se pensa terem pertencido ao chamado Palácio dos Bispos.

Lagar de Varas e Museu Epigráfico

O Largo da Sé dá também acesso ao Lagar de Varas. É um lagar privado do século XIX, reconstruído recentemente, que mostra o aproveitamento dos recursos locais para a transformação dos produtos agrícolas da região, neste caso poderia servir para o azeite mas também eventualmente para o vinho .Este tipo de lagar é uma herança deixada do tempo dos romanos uma vez que era esta a metodologia usada na época. Infelizmente, este é o único exemplar restaurado, dos mais de 200 existentes na região e que por imposição da UE foram todos desactivados e estão hoje em ruínas.

No seu pátio, encontramos uma estrutura deliberadamente contemporânea, e que alberga um dos mais importantes acervos epigráficos romanos da Península Ibérica, e que nos transporta até à antiguidade que esta aldeia viveu. Para quem gosta de história ou arqueologia é sem dúvida imperdível, é muito interactivo e bem explicado.

Torre dos Templários

Indo até ao final da rua, iremos encontrar o que resta de uma antiga torre de menagem, ou torre dos Templários, construída no século XIII sobre o podium do templo principal do fórum romano. Daqui, por ser um ponto mais alto, é possível ter uma visão abrangente do conjunto da aldeia.

Igreja Matriz e Pelourinho

Descendo pela rua do Castelo em direcção à Igreja Matriz, passamos pelo Forno Comunitário, recentemente recuperado e que era utilizado pela população para cozer o pão. Chegados à praça encontramos 3 marcos importantes. O Pelourinho, de estilo manuelino e que assinala o foral cedido por D.Manuel I a Idanha-a-Velha em 1510, o Edifício dos Antigos Paços do Concelho e a Igreja Matriz (antiga Igreja da Misericórdia) construída no século XVIII em estilo renascentista. 

Na altura em que visitámos a aldeia, e por ser época de nidificação das cegonhas, animal muito comum na região, tivemos também o prazer de poder observar no topo da igreja Matriz duas jovens cegonhas no seu ninho que treinavam os seus primeiros voos. Sem dúvida, um espectáculo singular e que nos deu também uma ideia maior do que se pode fazer por aqui.

Capelas de São Dâmaso, do Espírito Santo e de São Sebastião

A Capela de São Dâmaso é uma pequena capela que encontramos já fora da zona muralhada. Circundando a muralha pelo exterior chegamos à pequena Capela do Espírito Santo, onde se realizam as festas em honra do mesmo, e logo de seguida encontramos a última capela, a Capela de São Sebastião, já bem perto do local onde tínhamos deixado o carro.

Ponte Romana sobre o rio Pônsul

Olhando sobre o Rio Pônsul é fácil de localizar a Ponte de origem romana, importante elo de ligação entre Mérida (Emérita Augusta) e Braga (Bracara Augusta), que teve várias reconstruções ao longo da Idade Média. Nas férteis margens do Rio, podem ser vistas ainda hoje, as hortas da aldeia, muito importantes na sobrevivência desta população.

Se seguirmos ao longo do rio, ou saindo pela Porta Sul, podemos também encontrar as Poldras que serve para fazer a passagem para a outra margem, principalmente no inverno, já que no Verão a água mal chega para as cobrir.

Termina aqui esta nossa visita a esta aldeia tão cheia de história e de estórias para contar. Não se esqueçam dela, da próxima vez que forem à Beira Baixa, irão fazer uma viagem ao passado longínquo destas terras de tradições.

” Esta aldeia vem de tão longe que se perdeu em viagem…”

José Saramago, Viagem a Portugal

Viagem realizada em Junho 2020

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