Suzhou, a “Veneza” da China

Suzhou, é daquelas cidades pela qual é difícil não nos apaixonarmos. Conhecida pelos seus jardins clássicos, pelos inúmeros canais e pontes de pedra, tem sido frequentemente apelidada de “Veneza do Oriente”. Com mais de 2500 anos de história e apesar do desenvolvimento tecnológico da China, é uma cidade que mantém ainda as suas tradições e autenticidade.

Situada a apenas 150 km de Xangai, é perfeita, e facilmente alcançável, para uma visita de um dia, até porque, com o comboio de alta velocidade, demoramos apenas 30 minutos até lá. No nosso caso, aproveitando que iriamos seguir viagem de comboio, de Xangai para Hangzhou, decidimos fazer um desvio e aproveitar para a conhecer. Deixámos a bagagem na estação e fomos explorar os seus encantos.

Desde cedo, e graças à construção do Grand Canal (Património Mundial da UNESCO desde 2014) no século VI e à sua localização estratégica, que a cidade se tornou próspera, atraindo mercadores aristocratas, intelectuais e artistas que se foram estabelecendo e erguendo as suas habitações e seus jardins. Chegaram a ser mais de 100 jardins e restam hoje apenas 69 protegidos com património nacional e que são a grande atracção da cidade.

Dos oito jardins de Suzhou declarados Património Mundial pela UNESCO, o Humble Administrator’s Garden, é talvez o mais representativo desta arte e foi por isso que o escolhemos para iniciar a nossa visita. O jardim é enorme (cerca de 5 hectares) e são necessárias algumas horas para o explorar devidamente. Como fomos no Inverno e durante a manhã, beneficiámos por não haver muita gente e assim pudemos desfrutar da melhor forma, deste espaço maravilhoso.

Construído em 1509, durante a Dinastia Ming, por um alto funcionário aposentado, o jardim consiste em vários cenários constituídos por inúmeros pavilhões e pontes num labirinto entre lagos e ilhas. Entre cada aposento uma porta circular abre um novo mundo de paz, tranquilidade e beleza. Deambular pelas suas paisagens e apreciar cada detalhe do local faz-nos perder no tempo, mas vale cada segundo.

Depois do jardim, seguimos pelas ruas de Suzhou até à Pingjiang Road com as suas casas tradicionais, canais e pequenas lojas de artesanato local. Esta foi uma das principais ruas da antiga Suzhou, que remonta à época da dinastia Song, pelo que percorrê-la é quase como um regresso ao passado e à vida diária dos seus habitantes de outros tempos. Com o turismo, muitas das casas foram transformadas em bares, restaurantes e lojas mas mesmo assim preserva muitas tradições. Há quem faça um passeio de barco pelos canais mas nós preferimos passear a pé e descobrir a cidade desta forma.

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Pelo caminho fomos encontrando várias lojas expondo as artes locais e lembrando da importância que as mesmas tiveram no passado, principalmente a produção a seda. Desde os tempos imperiais até aos dias de hoje que a qualidade da seda produzida na região sempre se destacou e lhe deu fama, existindo até um Museu da Seda em Suzhou. Por isso, lojas com os mais variados artigos produzidos em seda, é algo que não falta por aqui.

Além da seda, outra arte muito importante na região, são os bordados tradicionais chineses, que parecem autênticas pinturas. Em alguns casos é até difícil de acreditar que se trata mesmo de um bordado feito com linhas, tal é a perfeição e o detalhe.

Encontrámos também, muita exploração de pérolas. Há lojas com aquários de moluscos enormes que produzem as pérolas. Conseguimos aqui observar o processo de extracção, limpeza e comercialização destas joias. As pérolas são pequenas mas têm grande beleza e um preço nada elevado.

E é nestas andanças que acontecem por vezes as coisas que mais nos marcam em viagem. Numa das lojinhas em que entrámos, o proprietário que nada falava de inglês, era muito simpático e um curioso por nos ver ali, afinal eramos os únicos ocidentais. Queria saber tudo sobre como era a vida e as coisas no nosso país. Escusado será dizer que, muita mimica e o translator no telemóvel lá fizeram com que nos entendêssemos. Durante a conversa, pediu-nos para ver como era o nosso dinheiro, e nós mostrámos uma moeda e uma nota. Achámos tanta piada à curiosidade dele, que quisemos oferecer-lhe a nota, mas como na China oferecer dinheiro ou dar uma gorjeta é uma espécie de ofensa, não aceitou de todo. Lembrou-se então de oferecer ele uns brincos de pérolas em troca da nota, considerando assim que estraríamos a pagar por um dos seus produtos. E foi assim que trouxemos uns brincos de pérolas por 11€, e claro, aqui a menina Ana agradeceu muito 🙂

Para terminar, e antes de regressar à estação para seguir para Hangzhou, ainda fomos até Tiger Hill. Diz-se que “terá remorsos toda a vida se tiver estado em Suzhou e não tiver visitado a colina do tigre”, por isso, como não queremos ter remorsos, cumprimos o provérbio e fomos ver se era mesmo assim. E era…

Tiger Hill é uma colina de grande beleza natural e cheia de locais de grande significado histórico e religioso. Reza a lenda que, em 496 AC, He Lu, rei do estado Wu, foi aqui enterrado e que três dias depois, um tigre branco apareceu no local para o proteger, sendo essa a origem do seu nome. Existe também uma fenda numa rocha que se diz ser o local onde esse mesmo rei testava as suas espadas e que as mesmas foram ali enterradas (na Sword Pool) como objectos funerários. No topo da colina situa-se o Yunyan Pagoda, local de orações em tempos idos, também conhecido por ser a segunda torre inclinada do mundo. Foi construído há mais de 1000 anos, e estava encerrado por motivos de segurança devido à sua degradação e instabilidade, mas isso não impediu de apreciarmos a sua arquitectura a partir do exterior, assim como os belos jardins que o rodeiam.

É fácil perdermo-nos na beleza e encantos desta cidade, mas aproximava-se a hora do nosso comboio e por isso preparámo-nos para nos despedir de mais uma bela surpresa por terras da China.

Quando chegámos à estação, tivemos alguma dificuldade em encontrar o local onde tínhamos deixado a nossa bagagem. As estações de comboio na China são todas enormes e a porta por onde saímos não foi a mesma por onde entrámos.

Foi então que tivemos mais um daqueles momentos que dão histórias para contar: Pedimos ajuda a uma segurança, que nos mandou para o centro de informações da estação, o não era de todo o que pretendíamos. Depois de alguma procura lá demos com o sítio e no regresso encontrámos novamente a mesma segurança, que andava à nossa procura pela estação (também não seria difícil de nos encontrar, mais uma vez eramos os únicos ocidentais por ali). Vinha com o telemóvel no ar, e dirigiu-se a nós muito aflita. Queria mostrar-nos uma mensagem que tinha escrito, traduzida para inglês, e que dizia o seguinte: “Peço imensa desculpa por ter-vos dado informação errada, não percebi o que pretendiam. Façam uma boa viagem e espero que gostem do nosso país.”

E são estas coisas que vão ficando nas nossas memórias e que nos enchem o coração. Até à próxima!

Nota: Viagem realizada em Dezembro de 2017

12 Comments Add yours

  1. q interessante esse fato que não aceitam dinheiro e consideram como uma ofensa. pra gente aqui seria “opa obrigada, tem mais?”
    ainda não fui para a china mas varias fotos me lembraram o vietna, ja q as culturas sao muito semelhantes

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    1. Sim, em Portugal seria o mesmo! Mas na China e no Japão também não gostam nem de gorjeta, é até ofensivo.

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  2. katewanderinglife diz:

    Nunca tinha ouvido falar desta cidade… A China é um país tão grande que seria preciso um eternidade para conhecer tudo! Gostei muito dos jardins e da arquitetura das casas. Dá vontade de ir visitar mesmo!

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  3. Ana diz:

    Não conhecia Suzhou (nunca tinha ouvido falar) e sem dúvida um lugar pitoresco. Essa história final, com a segurança da estação, é mesmo aquele tipo de momentos que nos ficam para sempre na memória!

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  4. Edson Jr diz:

    Mas que interessante, nunca tinha ouvido falar desta cidade. E que legal essa similaridade com a cidade italiana, porém com várias arquiteturas chinesas. adorei.

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  5. Amei seu post! E nossa… que lugar mais lindo! Já era louca para conhecer a China sem saber da existência de Suzhou… Agora então! Muito obrigada pela dica. 🙂 🙂 🙂

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  6. Quero conhecer a China, deve ser o lugar mais doido do mundo! huahuah Adorei essa cidade, que nem fazia ideia que existia, muito legal você trazer isso aqui! Parabéns!

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  7. Uau…era “esta” China que eu gostaria de visitar um dia também. Vamos lá ver quando se proporciona…esses jardins são belíssimos!

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  8. Que lindo! Acho que o dia que visitar a China vou querer lá passar semanas e semanas. Principalmente nestas cidades. O Humble Administrator’s Garden deve ser um espaço incrível.

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    1. A China foi uma boa surpresa para nós, tanto que dissemos logo que tínhamos de voltar. E esses jardins são belíssimos!

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  9. Que cidade pitoresca! E tal como Veneza deve ser fácil se apaixonar por ela! As suas fotos fazem com que agente queira colocar esta cidade no nosso roteiro!

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    1. É verdade, e vale muito a pena ir lá.

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