Mombaça, o paraíso adiado…

Mombaça, a segunda maior cidade do Quénia, fica no litoral sul, já muito perto da fronteira com a Tanzânia. Talvez por isso, sendo este país maioritariamente muçulmano, Mombaça também o é! É, no entanto, uma cidade multicultural, e onde é visível a presença portuguesa, britânica, árabe, indiana e asiática.

Foi fundada no Século XI por comerciantes árabes mas foi conquistada pelos Portugueses em 1528. Vasco da Gama foi o primeiro europeu a pisar Mombaça, e os portugueses ocuparam o território durante cerca de 200 anos.

Mombaça é na verdade uma ilha ligada ao continente por uma passagem, conhecida por Makupa Causeway, e por pontes e ferries. Existem recifes de corais ao longo de vários quilómetros da costa de Mombaça, que oferecem excelentes condições para o mergulho, snorkeling e pesca submarina. As praias são a maior das atrações de Mombaça. A norte, as praias de Nyali e Bamburi são duas das favoritas, enquanto a sul as praias de Shelly, Tiwi e Diani são as mais populares.

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Mas não podemos dizer que o impacto da chegada a Mombaça tenha sido o melhor do mundo. Após uma semana a percorrer as belezas naturais deste país, tínhamos planeado para os últimos dias, descanso e relax nas suas praias banhadas pelo Indico, mas a primeira impressão na chegada à cidade deixa qualquer um completamente desanimado.

A cidade, e atravessámo-la para ir para o nosso hotel em Diani Beach, tem o movimento, entusiasmo, ruído, cheiro e ambiente do que qualquer outra cidade africana sobrelotada tem. Mas tem, igualmente, mulheres de burka, e homens mal-encarados, não se vendo as tradicionais africanas que andam praticamente despidas, nem os sorrisos afáveis dos Masai. Esta conjugação, áfrica negra e muçulmana, é algo estranho à primeira vista.

Outro ponto que nos fez muita confusão foi o cheiro. Mombaça é provavelmente o local mais sujo e poluído onde já tivemos. O lixo amontoa-se nas ruas, sim, literalmente montes de lixo, e mistura-se com os comerciantes e com os transeuntes, deixando um rasto de sujidade difícil de explicar por palavras. Para terem noção existe uma lixeira enorme a céu aberto junto ao porto, em plano centro urbano… Estas são claramente daquelas situações difíceis de compreender, explicar e aceitar.

O nosso hotel ficava a cerca de 50 km e demoramos aproximadamente 1 hora a fazer o percurso. Tivemos, inclusivamente, de passar a baía de balsa onde fomos aconselhados pelo motorista nesse momento, a não sair do carro nem a fotografar. Não que sejamos muito temerosos em situações destas, mas olhando ao redor e com aquele aviso tão perentório, pensámos duas vezes. Como já dissemos em outros posts adoramos África e não podemos dizer que nos tenhamos sentido inseguros durante toda a viagem, mas a envolvência era propícia a que não arriscássemos. E por isso não arriscámos.

Ao longo do caminho para o hotel vimos uma zona mais rural, mas essencialmente de agricultura de subsistência. Se há algo que aqui não falta é água e vemos várias casas isoladas junto a pequenas plantações que provavelmente exploram e comercializam os produtos que daí advêm.

Existem vários hotéis nesta zona mas que aparentam estar praticamente vazios ou até mesmo fechados. Ataques terroristas provenientes da Somália assolavam o país na altura da nossa viagem e fizeram com que o turismo sofresse muitíssimo. O mercado Britânico, principal indutor de turistas na região, cancelou vários voos e desaconselhou as viagens ao Quénia, provocando dificuldades financeiras e até mesmo o encerramento de alguns hotéis.

Chegados ao nosso hotel, que estava até com uma ocupação razoável, fomos logo espreitar a praia, que era o que nos trazia até aqui.

Poucas palavras descrevem o que os nossos olhos viam: a praia é maravilhosa! A areia é tão fina e de tal forma branca que reflecte o sol com uma intensidade que chega a ferir os olhos. Juntando um mar de água quente e de cor azul-turquesa, a combinação fica perfeita…

Estranhámos, no entanto, que num areal de tamanha extensão e a perder de vista, houvesse apenas cerca de uma dezena de pessoas na praia, por isso aproveitamos o final de tarde para um passeio á beira-mar.

Foi então que compreendemos o porquê de a piscina estar cheia e a praia vazia… Assim que colocámos o pé na areia fomos absorvidos por locais a tentar vender-nos tudo, desde artesanato a passeios de camelo ou de barco e pedindo dinheiro a cada passo que dávamos. Adoramos ficar à conversa com a população local, pois gostamos de melhor compreender os seus hábitos e costumes, mas aqui foi completamente impossível! Atropelam-se uns aos outros para chegar até nós e apenas ignorando-os é que nos deixam em paz… Agora imaginem o que seria estar na praia a descansar e ser interpelados de minuto a minuto por alguém diferente a vender ou pedir algo… Havia, para terem noção, mais locais que turistas na praia.

Aqui, a não ser que tenham “sangue frio” para ignorar os locais, não se consegue aproveitar a praia da forma que estamos habituados a fazer. Estivemos 5 noites neste paraíso mas apenas fazíamos caminhadas e dávamos alguns mergulhos pela manhã na praia, depois só mesmo a piscina…

Bom, mas como de costume, ficar muito tempo quietos no mesmo lugar não é connosco, lá tivemos de ir ver o que os nossos “avós” construíram nesta cidade… Pedimos um táxi no hotel e regressámos a Mombaça. Às vezes um segundo olhar, tira-nos algumas dúvidas e leva-os a outra opinião, mas neste caso nem no segundo e nem no terceiro e outros mais houvesse, mantivemos a opinião gerada no impacto inicial. Mombaça, podia ser uma bonita cidade face á sua localização junto ao mar, mas é uma cidade feia e suja e que em nada faz jus ao resto do país.

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Um dos locais que estava na nossa lista de visita era o Forte Jesus, edificado em 1593 pelos portugueses com o objectivo de proteger a cidade e o porto, e considerado um dos edifícios mais importantes da arquitetura militar do século XVI, assim como o Forte de Makupa.

Tivemos uma pena imensa em não poder entrar (estava encerrado sem explicação aparente), mas por fora conseguimos perceber que é se trata de uma fortificação tipicamente portuguesa em muito semelhantes às muitas que existem por esse mundo fora. Quando viajamos, gostamos de procurar sempre vestígios de presença portuguesa e quando encontramos e ficamos na sua presença, enchemo-nos de orgulho perceber o quão importante fomos (somos) enquanto povo e nação.

O forte foi construído durante o reinado de Filipe I de Portugal e serviu não só de protecção à população portuguesa residente, mas também de base para o comércio estabelecido nesta região. Mombaça é, como foi à data, um dos portos de águas profundas mais importantes da costa oriental de África. A presença portuguesa nunca foi bem aceite pelos árabes de Omã que dominavam a região na época, tendo a fortaleza sofrido inúmeros ataques após a sua construção. É desde 2011, Património da Humanidade pela UNESCO, mas infelizmente está muito mal preservado, aliás, como a restante cidade. Uma vez mais, e para não fugir à regra, fomos constantemente interpelados por dezenas de pessoas para comprar alguma coisa. À semelhança de Nairobi não se veem turistas na rua, devem provavelmente optar por permanecer nos hotéis… mas nas piscinas, pois nas praias não é fácil…

Fomos também visitar um centro de artesanato local que funciona como uma espécie de cooperativa, onde os artesãos fazem as peças que são vendidas na loja do espaço a preço fixo, recebendo o autor da peça uma percentagem do valor e o restante sendo dividido por todos.

Além de comprarmos aqui o tipo de artesanato que vínhamos a “namorar” há alguns dias, pudemos também ver os artesãos a elaborar as peças que lhes conferem aquela exclusividade e identidade próprias. Chovia imenso nesse dia e as condições de trabalho não era claramente as melhores mas foi uma experiência muito interessante.

No final da nossa estadia ficámos com um sentimento de tristeza… Tinha tudo para ser um local turístico fantástico que inevitavelmente ajudaria e traria riqueza à cidade e ao povo, mas a ânsia de fazer “dinheiro fácil” faz com que os mesmos não regressem e não aconselhem ninguém a visitá-la. É uma pena porque aquelas praias são qualquer coisa de extraordinário…

A  nossa viagem ao Quénia tinha terminado e estávamos de regresso a Lisboa.

Nota: Viagem realizada em Junho de 2014

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