Kinabalu, à conquista da montanha

Ninguém poderá negar que este era o ponto alto da nossa viagem pela Malásia. Era também, de todas as paragens, aquela que mais dificilmente conseguiríamos prever. A ideia de subir o monte Kinabalu partiu do nosso interesse em visitar a ilha do Bornéu, mais propriamente a região de Sabah. Tínhamos várias possibilidades de percursos mas este era claramente o mais desafiante. E logo nós que não temos experiência nenhuma em montanha…

Contratámos um pack que incluía o alojamento no parque natural de Kinabalu (Kinabalu Park), e a subida ao Mount Kinabalu, com alojamento em Lanban Rata (um alojamento de montanha). Cada viajante que pretenda fazer a subida, só o pode fazer acompanhado por um guia certificado e por isso é quase obrigatória a contratação destes packs.

O Mount Kinabalu, a maior montanha do Sudeste Asiático, com 4.095 metros de altitude, é rodeada pelo Kinabalu Park, um parque natural, protegido pela UNESCO como Património natural da Humanidade desde 2000, com entre 5.000 e 6.000 espécies de plantas e 326 espécies de pássaros, algumas delas endémicas e únicas no mundo.

Tínhamos, como se vê, naturais expectativas em relação à conclusão deste desafio.

Chegámos a Kota Kinabalu vindos do Brunei e, mesmo sendo já tarde, ainda fomos explorar um pouco, e beber qualquer coisa num bar ali perto do hotel. Depois de vir do Brunei, onde o álcool é proibido e nem dá ideia de que estamos na Ásia, soube-nos bem mergulhar na confusão, vida e dinâmica asiática.

No dia seguinte de manhã seguimos em direcção ao parque onde ficaríamos alojados a primeira noite. Nessa tarde, e depois de almoçarmos por 4€ (sim, os dois!), fizemos a visita ao Jardim botânico (inserido no parque natural) mas, infelizmente, nesta altura do ano e com muita pena nossa não está muito florido… Há visitas guiadas pelo jardim em três horários durante o dia. Embora não tenha sido extraordinariamente esclarecedora, uma vez que a guia parecia não ter grande vontade de estar ali, ficámos com uma ideia da magnífica flora que habita nesta zona do planeta.

Após esta visita decidimos fazer um pequeno trilho de cerca de 2,5 km pelo interior parque para conhecer melhor a região e a floresta tropical. É mesmo fantástico!

O parque está muito bem organizado. Os alojamentos são afastados da recepção mas o parque disponibiliza transporte para todos eles em horário a definir. Os quartos são simples mas muito agradáveis e acolhedores. Aquando o check-in fomos informados do plano de refeições, funcionamento do parque, horários, etc…

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Prestámos atenção ao briefing de esclarecimentos sobre a subida, a que assistimos ao final da tarde, e depois de jantar, descansámos para nos prepararmos para a nossa aventura.

A subida ao Mount Kinabalu é efectuada em dois dias: No primeiro dia, temos pela frente 6 Km, desde Timpohon gate (1.866 metros) até ao alojamento em Laban Rata que se situa a 3.273 metros de altitude. Este percurso é suposto demorar entre 4 a 8 horas dependendo do nível de preparação dos caminhantes. No segundo dia, saímos às 2h da manhã com o objectivo de atingir o cume aos 4.095 metros de altitude ainda antes do nascer do sol. Este percurso tem cerca de 3 km e é suposto ser realizado entre 3 a 4 horas. Depois devemos descer até ao alojamento para o pequeno-almoço, seguido da descida até à base. É suposto chegar ao parque cerca das 14h para almoçar.

Olhando para este programa e para a montanha, que envergonhada, espreitou para nós ao cair da tarde, dá tudo menos vontade de tentar, mas como somos ambos persistentes e aventureiros decidimos (mesmo pagando para isso) testar os nossos limites.

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No dia seguinte de manhã, a montanha revelou-se com todo o seu esplendor, e podemos ver melhor o desafio que tinhamos para enfrentar. Apesar da ansiedade natural destas situações, lá fomos nós, após o pequeno-almoço, ao encontro do guia que nos ia acompanhar na subida. O guia que nos foi atribuído, o Richard, tem 51 anos, é o líder dos guias, e é originário das Filipinas, mas vive nesta zona há mais de 30 anos, e como é óbvio, já subiu o Kinabalu vezes sem fim (nem ele mesmo sabia dizer-nos quantas vezes já o fez). Antes de iniciarmos, é-nos entregue um badge, que servirá para nos identificar e validar nos postos de controlo (checkpoints) ao longo do percurso.

Existe também a possibilidade de contratar alguém para levar as mochilas mas acabámos por decidir levá-las nós mesmo. A minha tinha cerca de 10 kg e a da Ana 4 Kg, e nelas transportávamos apenas o necessário para uma noite no alojamento e agasalhos para o frio que se faz sentir no topo, além de snacks energéticos, uma pequena refeição (fornecida pelo parque) e água, muita água.

Dirigimo-nos então à Timpohon Gate, porta de entrada do trilho que nos levaria ao cume da montanha e começamos a nossa subida.

Os primeiros 2 Km são relativamente simples e com o entusiasmo fazemo-los quase sem dar conta. Aqui a vegetação é muito densa, ou não estariamos nós em plena floresta tropical do Bornéu. Por todos os lados se ouve água correr, quer em pequenos ribeiros que se tornam, mais ou menos intensos consoante as chuvas do dia, ou se precipitam em cascatas bem junto ao nosso caminho. Os fetos e o imenso tapete de musgo verde que cobrem totalmente o solo, dão ao trilho a ideia de caminharmos por uma floresta encantada. Só faltavam as fadas!!! Mas quando pela frente temos mais um lanço de escadas intermináveis, toda esta ideia se esmorece por completo…

A partir segundo quilómetro, o percurso vai ficando cada vez mais difícil. As paragens vão sendo cada vez mais frequentes. A rarefação do ar, que sentimos mais intensamente a partir dos 2.500 metros de altitude, e o calor que, apesar da altitude se continua a fazer sentir, ajudam a dificultar ainda mais esta tarefa.

Aos cerca de 4 km, num dos pequenos abrigos existentes ao longo do percurso, aproveitámos para fazer a nossa pequena refeição. Foi aqui que tivemos a visita de alguns habitantes da floresta que, sem medos, se aproximavam de nós na ambição de nos roubar algo para comer. De imediato, todos os guias deram indicações de que era proibido alimentar os animais de forma a não perturbar os desígnios da natureza.

Voltámos ao caminho… E o caminho é duro, muito duro! O caminho é inimaginavelmente duro… A Ana estava minimamente preparada pois foi responsável (e inteligente) e começou a fazer preparação física no ginásio 5 meses antes da viagem. Eu não! Mas acreditem que, independentemente disso, ninguém está devidamente preparado para o que vai encontrar. Tantas pragas que rogámos, a quem disse que isto era fácil…

À medida que subimos, a vegetação vai ficando menos densa, as árvores passam a pequenos arbustos, o ar fica mais rarefeito e nem os animais por aqui sobrevivem, dada a escassez de alimentos. Mas a vista sobre a ilha do Bornéu… essa é magnífica!

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Mas, mais impressionante ainda é que, como este é o único acesso ao alojamento de Lanban Rata, existem dezenas de pessoas (locais) a transportar tudo o que se possa imaginar até lá: comida, bebidas, materiais de construção, etc…Mesmo com todo o peso que transportam, ainda assim nos ultrapassam e nos cumprimentam com um sorriso no rosto. A descida, já bem leves, fazem-na praticamente toda a correr, ainda vamos nós a subir… A Ana fazia questão de lhes dizer que eram uns heróis e uma inspiração para continuarmos! Segundo o Richard, o nosso guia, o record de peso jamais transportado foi de 60 Kg! Sim, 60 Kg durante 6 Km sempre a subir… Acreditem que impressiona qualquer um!

Demorámos cerca de 6 horas a atingir Laban Rata mas houve partes do percurso em que nos foi muito difícil continuar. Em 6 km subimos escadas e mais escadas, a maior parte, rudemente construídas, ao início com as fortes raízes das árvores e mais adiante com rochas e pedras.

Reconhecemos que o último Km foi um autêntico sacrifício e quando vimos Laban Rata foi como se víssemos o céu!

Algo que nos assustou um pouco foi que, em toda a informação que lemos, nada nos diz que será tão duro como foi, antes pelo contrário, a informação é que qualquer pessoa saudável está apta para o fazer. Mas vimos pessoas a demorarem mais de 14 horas a chegar ao alojamento, algo que ultrapassa largamente o razoável. Na nossa opinião, a informação prestada não é suficiente para que alguém se prepare devidamente para o que vai encontrar. Além disso, durante todo o percurso não há forma, a não ser de helicóptero, de desistência dos participantes e quando alguém está, por exemplo, nos 4,5 Km tem de subir o que falta (demore o tempo que demorar) até ao alojamento e depois voltar a descer no dia seguinte.

Após a chegada, por volta das 14h30, verificámos que não éramos os últimos a chegar, o que nos deixou muito orgulhosos do enorme feito que tínhamos conquistado. Ok, pode não ser grande coisa, mas para nós foi algo de grandioso!

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Ficamos a saber, á posteriori, que alguns caminhantes que iniciaram a subida ao mesmo tempo que nós, só chegaram ao alojamento às 22h30. Soubemos também que mais de 50% das pessoas desistem neste ponto e já nem se aventuram a tentar subir ao pico.

O alojamento é bastante confortável e muito bem organizado. Ficámos num dos 2 únicos quartos duplos existentes (um luxo), pois os restantes quartos são em formato camarata, e jantámos por volta das 16h30. Julgávamos que seria impossível adormecermos tão cedo, mas por volta das 18h, quando nos encostámos um pouco na cama, apagámos completamente, tal era o cansaço!

Acordámos à 1:30h, cheios de energia e sem dores nas pernas (algo que achávamos que não iria acontecer) para tomar a ceia que antecederia a conquista do cume. Estávamos muito entusiasmados! Sabíamos que os 3 km até ao pico seriam complicados não só pela morfologia do terreno mas também por ser ainda noite. Mas tínhamos muita vontade de atingir esse objectivo.

O percurso desde Laban Rata é, como nos disse o nosso guia, muito mais duro! Enormes pedras formando degraus, a que dificilmente conseguimos chamar de escadas, durante quase 1 km, é o que temos de enfrentar até Sayat Sayat, o último checkpoint antes de Low’s Peak, o ponto mais alto de Kinabalu.

Desde esse ponto, ainda fizemos mais cerca de 500 metros (até aos 7,5 km), com muita dificuldade sim, mas sem problemas físicos que nos impedissem de continuar. Mas o tipo de terreno, o meu medo de alturas e a extrema dificuldade do piso levou-nos a optar, depois de falarmos com o nosso guia, pela desistência neste ponto. Conseguiríamos subir (e só faltava 1,5 km), mas dificilmente eu conseguiria, à luz do dia, descer as rochas que agora escalávamos.

Para melhor compreenderem, e por ser de noite não temos grandes fotos, o percurso a partir deste ponto é efectuado mediante a ajuda de uma corda, escalando rochas lisas de uma altura respeitável sem qualquer tipo de segurança adicional.

Não digo com isto que seja impossível, pois muita gente conseguiu este objectivo, mas era realmente demais para as nossas capacidades e principalmente para a nossa experiência nestas coisas. O Richard referiu que muitas pessoas, quando descem ao amanhecer é que se deparam com as dificuldades, as mesmas que nós estávamos agora a prever, e chegam a gerar-se situações muito complicadas…

Como não concluímos a subida, tivemos tempo para algumas fotografias ao amanhecer embora as nuvens não ajudassem. Regressámos a Lanban Rata para o pequeno-almoço e ganhar forças para enfrentarmos os restantes 6 km com mais uma dose de energia (e boa vontade!)

Bom, os primeiros 2 km, embora sejam os mais duros, foram novamente os mais giros! Apreciávamos agora a vista da descida e ainda tínhamos energias para conversar… A partir daí foi um sacrifício chegar a Timpohon Gate. Acreditem, descer é muito mais difícil que subir!

Conseguimos chegar às 14h, 6 horas depois de iniciarmos a descida. Não temos pejo em afirmar que as nossas forças estavam praticamente esgotadas! Para terem noção tivemos os 4 a 6 dias posteriores com dores musculares…

Resumindo, é uma experiência de uma vida!

E vale a pena? Vale claro, nem que seja para vermos que estamos abaixo de forma! 🙂

Nota: Viagem realizada em Abril de 2017

11 Comments Add yours

  1. contramapa diz:

    Que caminho duro, mas as fotografias são impressionantes! Da minha parte, acho que também não iria conseguir fazer a última parte, até porque sofro de vertigens, mas fazer a primeira parte como vocês fizeram já é uma tremenda vitória!

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  2. Olá… em primeiro lugar eu quero dizer que adorei o texto e a maneira como você discorre sobre essa aventura extraordinária. Viajei por ele com facilidade, querendo saber o próximo passo! Adoro quando encontro escritores assim! 🙂

    Em seguida quero parabenizá-los pela coragem, perseverança e conquistas! Cada quilômetro percorrido foi uma vitória e tanto!

    Por fim, que viagem incrível, que paisagens maravilhosas… Me deu larga vontade de experimentar meus limites em algo assim. Em tempo: de medo de altura eu entendo bem! E saber a hora de desistir é um ato de sabedoria. 🙂

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    1. Olá Analuiza
      Muto obrigado pelas suas palavras, dá-nos entusiasmo para continuar a escrever sobre as nossas aventuras.

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  3. Carla Mota diz:

    Que fixe! Adorei esta aventura. Fiquei cheia de vontade de voltar à Malásia para fazer isto. Não conhecia.

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  4. Www diz:

    Fantástica experiência. Confesso que conheço quase nada da Malásia e adorei ler sobre esse lugar. Parabéns pelo post.

    Claudia Bins

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  5. lid costa diz:

    Nao sabia que o Mount Kinabalu era a maior montanha do Sudeste Asiático. Parece um passeio suuuuper legal, um desafio para o corpo, mas deve ser muito recompensador poder completar e ver essa paisagem linda!

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  6. Uauuuu… fantástica aventura! Tudo sabe bem melhor quando cada metro sai do nosso esforço 🙂 Parabéns e obrigado pela partilha!

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  7. Nossa! Fiquei impressionada! Fui lendo sem vontade de parar! Realmente é uma super experiência! Adorei o relato.

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  8. Uau, que experiência! Realmente parece difícil, mas despertou a vontade de ir… gosto de trilhas e de subir montanhas, mas preciso melhorar meu condicionamento físico antes! parabéns pelo artigo.

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  9. Que aventura incrível!
    Nunca tinha ouvido falar, mas parece ser uma grande experiência!
    O sacrifício é valido para ver uma paisagem como essa.

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